Está alta no céu a lua e é primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores
Isso será uma alegria e uma novidade para mim.
Pessoa, Fernando
Poesia de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa.
Assírio&Alvim- Rua Passos Manuel 67B - Lisboa
sábado, 26 de maio de 2012
Quando eu não te tinha - Fernando Pessoa
Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, omo dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu não me mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.
Pessoa, Fernando
Poesia de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa
1ªed: setembro 2001/ 3ª ed. corrigida: outubro 2009
Asssírio & Alvim
Rua Passos Manuel,67B, 1150 - Lisboa
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, omo dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu não me mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.
Pessoa, Fernando
Poesia de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa
1ªed: setembro 2001/ 3ª ed. corrigida: outubro 2009
Asssírio & Alvim
Rua Passos Manuel,67B, 1150 - Lisboa
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Sopa de letras - Eduardo Galeano
Pelo tamanho e pelo brilho, parece uma lágrima. Os cientistas o chamam de lepisma saccharina, mas ele responde pelo nome de peixinho de prata, embora de peixe não tenha nada e não conheça a água.
Dedica-se a devorar livros, embora também não tenha nada de traça. Come o que encontra, romances, poemas, enciclopédias, pouco a pouco, engolindo palavra, de qualquer idioma.
Passa a vida na escuridão das bibliotecas. Do resto, não tem nem idéia. A luz do dia o mata.
Seria erudito, se não fosse inseto.
Galeano, Eduardo, 1940-
Bocas do tempo / Eduardo Galeano. - Porto Alegre: L&PM, 2004
Dedica-se a devorar livros, embora também não tenha nada de traça. Come o que encontra, romances, poemas, enciclopédias, pouco a pouco, engolindo palavra, de qualquer idioma.
Passa a vida na escuridão das bibliotecas. Do resto, não tem nem idéia. A luz do dia o mata.
Seria erudito, se não fosse inseto.
Galeano, Eduardo, 1940-
Bocas do tempo / Eduardo Galeano. - Porto Alegre: L&PM, 2004
terça-feira, 22 de maio de 2012
De não em não - Bartolomeu Campos de Queirós
Inteira, ela espreitava a terra inteira. Seu luar frio acariciava as pedras, as folhas, as águas, invadindo frestas até a alma. Sua claridade lapidava as trevas com perguntas e labirintos. Seu silêncio, de pouco em pouco, recordava conversas sobre perdidas palavras, gastos gestos, antigos amores. Inteira, no escuro do céu, ela despertava, com anil e sossego, mágoas inteiras. E nessa noite eles dormiam por terra, entre trastes, frio e mais abandono. Foi no coração do escuro que os soluços acordaram a mãe de sua madorna. Ela trancou os ouvidos com as mãos e desespero.
Tentou retornar o sono apertando os olhos e alucinada. Ela bem conhecia a origem das lágrimas dos meninos. Era a Fome, hóspede previsível. Entrava sem chaves, sem respeitar trancas. Surgia sem consentimento, negando trégua ao repouso.
Mas na casa só havia o vazio e o resto. A Fome, há muito, andava corroendo tudo. Devorou o relógio do pai e com ele engoliu o tempo; comeu a esperança junto com a medalha de ouro da mãe; mastigou o rádio de pilha e assim trancou a música. Isso, depois de mastigar as camas, as cadeiras, as mesas. o armário com todos os seus pertences. E nada reinava absoluto por todos os cantos dos cômodos. Era maio, e o frio da noite aquecia mais e mais a Fome. Na casa, só havia o vazio e o resto - nem mais tempo, esperança ou ruído. Mesmo as moscas já não mais zumbiam sua música ou pousavam nos lábios ressecados dos filhos, quando adormecidos. No fogão, as cinzas do que antes fora fogo acusavam a ausência de tudo.
Quanto menos se possui, com mais frequência a Fome nos visita - a mãe suspeitava.
A força dos braços do pai somada aos dias inteiros de trabalho não mais afugentavam a insistência da Fome. Era preciso ter mais horas e maior resistência para estancar, ainda que temporariamente, as demandas de sua presença.
A mãe, há muito, não abria o rosto em sorriso e as mãos para os carinhos. E se na noite faltava sono, o sonho era preenchido com memórias pesares. A Fome devorava também os amores, lastimava a mulher.
A falta crescia demasiadamente na casa. Algum murmúrio só retalhava o vazio em raros momentos.
Escutava-se um lamento, uma queixa, um soluço. A fome vinha degustando as palavras, frases, orações. Comia letra por letra, deixando a mudez em todas as bocas.
As conversas se teciam por meio de olhares cúmplices, corpos reprimidos, mãos estendidas. Mas o resto era tão pouco que não necessitava muitas palavras para nomeá-lo.
O pai se despediu um dia.
Levou o par de alianças para dispor e negociar com a Fome um pouco mais de vida.
Ficou no dedo da mão esquerda da mulher uma sombra desbotada de partida.
Ela contemplava o sinal com ilusão de reencontro. Sem preces, a mãe reconhecia os desígnios do eterno.
E tudo suportava, clarividente, para afastar dos filhos a presença da Fome e suas ameaças sem fronteiras.
A mulher sabia da necessidade de bem atender às exigências da Fome. Se não saciamos seu desejo, ela nos mata sem piedade, com golpe lento, pensava.
Chega mansa, assaltando o orgulho de ser humano. Depois rói o estômago para em seguida fazer tremer a pouca carne do corpo.
Embaça o olhar, tornando mais turvo o mundo, para então escurecer o pensamento. Assim, a vida se faz definitivamente noite, sem mais sono ou sonho. Porque a Fome é forte e mata.
Todos, quando pressentem sua chegada, buscam uma maneira de alimentá-la, sem demora.
Perseguem trabalho, procuram campos, abandonam famílias, ganham calúnias, merecem suspeitas, assaltam, violentam. Pelo pavor da Fome devorar vida, perde-se o limite dos muros.
A Fome não fala, mas exige pela dor - suspeitava a mãe.
Todos desconhecem o tamanho de sua boca e a medida de seus braços. Ela é capaz de abraçar uma nação inteira de homens em um mesmo tempo. Só se vê a Fome quando nos espelhos a apreciamos vestida em nosso corpo, transbordando loucura em nosso olhar. Ela chega impaciente. Orações, promessas, novenas - nada a Fome atende, respeita ou perdoa. E a Fome come por muitos. Com o devorado ela arma grandes banquetes para os seus senhores, generosamente. Em porcelana, linho, cristal, ela serve o resultado do vazio deixado no estômago dos oprimidos. Ela está sempre pronta para servir à mesa de seus donos, onde nada falta.
Por comerem tanto e sempre, os patronos da Fome nunca experimentaram na carne a crueldade de sua aliada.
Eles sabem de sua existência e seus lucros, sem jamais encarná-la.
Quando a tarde recolhia o voo dos pássaros entre galhos e ninhos e a lua crescia nas bordas das montanhas, a felicidade invadia provisoriamente o espírito da mãe. A fantasia era um acalanto amaciando o fim do poente. Quem sabe o marido chegaria abraçando os filhos depois de ter travado uma aliança com a Fome?
Mas naquela noite de choro - pois na casa só havia o vazio e o resto - nasceu no coração aflito da mãe um caminho.
Ela buscou a bacia encostada no canto da cozinha e deixou no meio do terreiro. Encheu o lago com água clara e madrugada.
Salgou com lágrimas aquele mar de tristeza.
Pescou a lua cheia do céu para dentro das ondas. Chamou pelos filhos e se assentaram na beira do oceano ou nas margens do prato. Com voz rouca e branda, como se evitando acordar a mentira, a mãe declamou para os filhos a sua tristeza:
- Não sei por onde viaja nosso pai.
Partiu para dispor das alianças e dilatar nossa vida. Alimentar a Fome era o seu querer, antes que ela nos golpeasse a todos.
Não sei se ele dorme cansado, coberto por esta noite branca, ou quem sabe ele vela, entre marquise e sarjeta, uma saudade como a nossa, enxaguada de luar.
A ausência do pai trouxe mais medo da Fome na alma dos meninos. A mãe, agora senhora dos milagres, cortou em quatro partes a lua das águas. E antes que a madrugada devorasse a noite, eles comeram a lua no café da manhã. As lágrimas da mãe caíram como pedras e anéis nas águas do lago, acariciando com ondas a falsa lua e o resto de maio.
A beleza engana, ela sabia, ao vislumbrar três rostos de anjos boiando dentro das águas.
O dia desbotou a lua no fundo do prato, lentamente. Nas águas, no que antes fora mar, a mãe efregava um resto de roupa, entre espumas, dedos e sombra de aliança, como se sovando a massa para o pão da ceia.
Os meninos, naquela hora, estariam vencendo as ruas, de porta em porta, de esquina em esquina, de lixo em lixo, de não em não, buscando armas para matar a Fome.
Queirós, Bartolomeu Campos de
De não em não/ Bartolomeu Campos de Queirós;
2ª edição - São Paulo: Global, 2009
Tentou retornar o sono apertando os olhos e alucinada. Ela bem conhecia a origem das lágrimas dos meninos. Era a Fome, hóspede previsível. Entrava sem chaves, sem respeitar trancas. Surgia sem consentimento, negando trégua ao repouso.
Mas na casa só havia o vazio e o resto. A Fome, há muito, andava corroendo tudo. Devorou o relógio do pai e com ele engoliu o tempo; comeu a esperança junto com a medalha de ouro da mãe; mastigou o rádio de pilha e assim trancou a música. Isso, depois de mastigar as camas, as cadeiras, as mesas. o armário com todos os seus pertences. E nada reinava absoluto por todos os cantos dos cômodos. Era maio, e o frio da noite aquecia mais e mais a Fome. Na casa, só havia o vazio e o resto - nem mais tempo, esperança ou ruído. Mesmo as moscas já não mais zumbiam sua música ou pousavam nos lábios ressecados dos filhos, quando adormecidos. No fogão, as cinzas do que antes fora fogo acusavam a ausência de tudo.
Quanto menos se possui, com mais frequência a Fome nos visita - a mãe suspeitava.
A força dos braços do pai somada aos dias inteiros de trabalho não mais afugentavam a insistência da Fome. Era preciso ter mais horas e maior resistência para estancar, ainda que temporariamente, as demandas de sua presença.
A mãe, há muito, não abria o rosto em sorriso e as mãos para os carinhos. E se na noite faltava sono, o sonho era preenchido com memórias pesares. A Fome devorava também os amores, lastimava a mulher.
A falta crescia demasiadamente na casa. Algum murmúrio só retalhava o vazio em raros momentos.
Escutava-se um lamento, uma queixa, um soluço. A fome vinha degustando as palavras, frases, orações. Comia letra por letra, deixando a mudez em todas as bocas.
As conversas se teciam por meio de olhares cúmplices, corpos reprimidos, mãos estendidas. Mas o resto era tão pouco que não necessitava muitas palavras para nomeá-lo.
O pai se despediu um dia.
Levou o par de alianças para dispor e negociar com a Fome um pouco mais de vida.
Ficou no dedo da mão esquerda da mulher uma sombra desbotada de partida.
Ela contemplava o sinal com ilusão de reencontro. Sem preces, a mãe reconhecia os desígnios do eterno.
E tudo suportava, clarividente, para afastar dos filhos a presença da Fome e suas ameaças sem fronteiras.
A mulher sabia da necessidade de bem atender às exigências da Fome. Se não saciamos seu desejo, ela nos mata sem piedade, com golpe lento, pensava.
Chega mansa, assaltando o orgulho de ser humano. Depois rói o estômago para em seguida fazer tremer a pouca carne do corpo.
Embaça o olhar, tornando mais turvo o mundo, para então escurecer o pensamento. Assim, a vida se faz definitivamente noite, sem mais sono ou sonho. Porque a Fome é forte e mata.
Todos, quando pressentem sua chegada, buscam uma maneira de alimentá-la, sem demora.
Perseguem trabalho, procuram campos, abandonam famílias, ganham calúnias, merecem suspeitas, assaltam, violentam. Pelo pavor da Fome devorar vida, perde-se o limite dos muros.
A Fome não fala, mas exige pela dor - suspeitava a mãe.
Todos desconhecem o tamanho de sua boca e a medida de seus braços. Ela é capaz de abraçar uma nação inteira de homens em um mesmo tempo. Só se vê a Fome quando nos espelhos a apreciamos vestida em nosso corpo, transbordando loucura em nosso olhar. Ela chega impaciente. Orações, promessas, novenas - nada a Fome atende, respeita ou perdoa. E a Fome come por muitos. Com o devorado ela arma grandes banquetes para os seus senhores, generosamente. Em porcelana, linho, cristal, ela serve o resultado do vazio deixado no estômago dos oprimidos. Ela está sempre pronta para servir à mesa de seus donos, onde nada falta.
Por comerem tanto e sempre, os patronos da Fome nunca experimentaram na carne a crueldade de sua aliada.
Eles sabem de sua existência e seus lucros, sem jamais encarná-la.
Quando a tarde recolhia o voo dos pássaros entre galhos e ninhos e a lua crescia nas bordas das montanhas, a felicidade invadia provisoriamente o espírito da mãe. A fantasia era um acalanto amaciando o fim do poente. Quem sabe o marido chegaria abraçando os filhos depois de ter travado uma aliança com a Fome?
Mas naquela noite de choro - pois na casa só havia o vazio e o resto - nasceu no coração aflito da mãe um caminho.
Ela buscou a bacia encostada no canto da cozinha e deixou no meio do terreiro. Encheu o lago com água clara e madrugada.
Salgou com lágrimas aquele mar de tristeza.
Pescou a lua cheia do céu para dentro das ondas. Chamou pelos filhos e se assentaram na beira do oceano ou nas margens do prato. Com voz rouca e branda, como se evitando acordar a mentira, a mãe declamou para os filhos a sua tristeza:
- Não sei por onde viaja nosso pai.
Partiu para dispor das alianças e dilatar nossa vida. Alimentar a Fome era o seu querer, antes que ela nos golpeasse a todos.
Não sei se ele dorme cansado, coberto por esta noite branca, ou quem sabe ele vela, entre marquise e sarjeta, uma saudade como a nossa, enxaguada de luar.
A ausência do pai trouxe mais medo da Fome na alma dos meninos. A mãe, agora senhora dos milagres, cortou em quatro partes a lua das águas. E antes que a madrugada devorasse a noite, eles comeram a lua no café da manhã. As lágrimas da mãe caíram como pedras e anéis nas águas do lago, acariciando com ondas a falsa lua e o resto de maio.
A beleza engana, ela sabia, ao vislumbrar três rostos de anjos boiando dentro das águas.
O dia desbotou a lua no fundo do prato, lentamente. Nas águas, no que antes fora mar, a mãe efregava um resto de roupa, entre espumas, dedos e sombra de aliança, como se sovando a massa para o pão da ceia.
Os meninos, naquela hora, estariam vencendo as ruas, de porta em porta, de esquina em esquina, de lixo em lixo, de não em não, buscando armas para matar a Fome.
Queirós, Bartolomeu Campos de
De não em não/ Bartolomeu Campos de Queirós;
2ª edição - São Paulo: Global, 2009
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Um punhado de passarinhos - Lázaro Simões Neto
Viver
Sem tangará
E sabiá?
Ser feliz
Sem pitiguari
E bem-te vi?
Ver o céu
Sem viuvinha
E andorinha?
Não ouvir
Pichochó
E curió?
Coloridos, livres,
Soltinhos,
Quero um punhado
De pasarinhos!
Simóes Neto, Lázaro, 1954-
O que levar para uma ilha deserta/Lázaro Simões Neto.
-São Paulo: Leya, 2011.
Sem tangará
E sabiá?
Ser feliz
Sem pitiguari
E bem-te vi?
Ver o céu
Sem viuvinha
E andorinha?
Não ouvir
Pichochó
E curió?
Coloridos, livres,
Soltinhos,
Quero um punhado
De pasarinhos!
Simóes Neto, Lázaro, 1954-
O que levar para uma ilha deserta/Lázaro Simões Neto.
-São Paulo: Leya, 2011.
Poesia na varanda - Sonia Junqueira
Brotou do chão a poesia
na forma de uma plantinha
espigada, perfumosa,
se abrindo toda pra mim:
mensageiro da alegria,
era um pé de alecrim
que dourou a minha vida...
na forma de uma gatinha
amarela, tão macia!,
uma bola peludinha
que chegou bem de mansinho...
Batizei-a de Chiquinha,
fiquei com ela pra mim.
Entrou em mim a poesia
na forma de uma canção
que falava de uma rua
com pedrinhas de brilhantes
e de um anjo solitário
que vivia por ali
e roubou um coração.
Gritou no mato a poesia
quando caiu a noitinha:
tantos astros em seresta,
pois era dia de festa,
e dentro da boca da noite
cantaram um coro sem fim...
Brilhou pra mim a poesia
na forma de lua cheia
e de um céu estrelado
despencando no telhado
de zinco do avarandado,
pronto pra ser pisado
por alguém bem distraído...
Cresceu em mim a poesia
na forma de uma tristeza,
um chorinho derramado
no silêncio da varanda.
Veio vindo, foi chegando
-carregada pelo vento?-
e tomou conta de mim.
Caiu do céu a poesia
na forma de uma chuvinha,
pingos grossos, cheiro doce,
que molhou as redondezas,
encharcou os meus cabelos,
inundou a minha vida
e levou minha tristeza.
Sorriu pra mim a poesia
na forma de um amigo
-mão estendida, carinho,
e estar juntos, quietinhos
ou ouvindo, ou contando,
ou rindo e barulhando...-
e abraçou minha vida.
Me arrebatou a poesia
trazida pelas palavras
abrigadas entre as páginas
do livro que alguém lia
e que deixou por ali:
mundo entrando pelos olhos,
enriqueceu minha vida.
Agora, sempre que quero
saber cadê a poesia,
dou um pulo na varanda,
me debruço - e espero:
quem sabe se de repente
ela volta e, simplesmente,
vem contar por onde anda...
Junqueira, Sonia
Poesia na varanda/ Sonia Junqueira
Belo Horizpnte: Editora Gutenberg, 2010.
na forma de uma plantinha
espigada, perfumosa,
se abrindo toda pra mim:
mensageiro da alegria,
era um pé de alecrim
que dourou a minha vida...
na forma de uma gatinha
amarela, tão macia!,
uma bola peludinha
que chegou bem de mansinho...
Batizei-a de Chiquinha,
fiquei com ela pra mim.
Entrou em mim a poesia
na forma de uma canção
que falava de uma rua
com pedrinhas de brilhantes
e de um anjo solitário
que vivia por ali
e roubou um coração.
Gritou no mato a poesia
quando caiu a noitinha:
tantos astros em seresta,
pois era dia de festa,
e dentro da boca da noite
cantaram um coro sem fim...
Brilhou pra mim a poesia
na forma de lua cheia
e de um céu estrelado
despencando no telhado
de zinco do avarandado,
pronto pra ser pisado
por alguém bem distraído...
Cresceu em mim a poesia
na forma de uma tristeza,
um chorinho derramado
no silêncio da varanda.
Veio vindo, foi chegando
-carregada pelo vento?-
e tomou conta de mim.
Caiu do céu a poesia
na forma de uma chuvinha,
pingos grossos, cheiro doce,
que molhou as redondezas,
encharcou os meus cabelos,
inundou a minha vida
e levou minha tristeza.
Sorriu pra mim a poesia
na forma de um amigo
-mão estendida, carinho,
e estar juntos, quietinhos
ou ouvindo, ou contando,
ou rindo e barulhando...-
e abraçou minha vida.
Me arrebatou a poesia
trazida pelas palavras
abrigadas entre as páginas
do livro que alguém lia
e que deixou por ali:
mundo entrando pelos olhos,
enriqueceu minha vida.
Agora, sempre que quero
saber cadê a poesia,
dou um pulo na varanda,
me debruço - e espero:
quem sabe se de repente
ela volta e, simplesmente,
vem contar por onde anda...
Junqueira, Sonia
Poesia na varanda/ Sonia Junqueira
Belo Horizpnte: Editora Gutenberg, 2010.
Contadores - Rosana Rios
Contadores de histórias me fascinam
quando soltam seus sonhos pelo ar:
eles falam de reis e de rainhas,
de castelos, de fadas, de ratinhas,
gatos, dragões, leões, monstros do mar.
Contadores de histórias têm poderes,
nem precisam de vara de condão.
Os seus contos são como encantamentos,
que amarram o sol e soltam ventos,
prendem luas e brincam com o trovão.
Eles parecem meros contadores,
mas são encantadores de serpentes;
com suas melodias encantadas
têm mais poder que magos, bruxas, fadas,
e brincam com a imaginação da gente..
Contadores de histórias colecionam
palavras impregnadas de magia,
lendas antigas que fazen chorar,
mitos fantásticos de além do mar,
sonhos que a gente sonha até de dia.
Contadores de histórias, quando dormem,
sonham com feiticeiros ao luar;
ouvem canções de mundos deslumbrantes,
conhecem príncipes , elfos, gigantes,
e se lembram de tudo ao acordar!
Contadores de histórias me enfeitiçam
como nenhuma bruxa nunca fez:
suas palavras causam arrepios,
voam nos ares e correm nos rios,
quando começam seu era uma vez...
Rios, Rosana Palavras mágicas/ Rosana Rios
São Paulo: Studio Nobel, 2010.
quando soltam seus sonhos pelo ar:
eles falam de reis e de rainhas,
de castelos, de fadas, de ratinhas,
gatos, dragões, leões, monstros do mar.
Contadores de histórias têm poderes,
nem precisam de vara de condão.
Os seus contos são como encantamentos,
que amarram o sol e soltam ventos,
prendem luas e brincam com o trovão.
Eles parecem meros contadores,
mas são encantadores de serpentes;
com suas melodias encantadas
têm mais poder que magos, bruxas, fadas,
e brincam com a imaginação da gente..
Contadores de histórias colecionam
palavras impregnadas de magia,
lendas antigas que fazen chorar,
mitos fantásticos de além do mar,
sonhos que a gente sonha até de dia.
Contadores de histórias, quando dormem,
sonham com feiticeiros ao luar;
ouvem canções de mundos deslumbrantes,
conhecem príncipes , elfos, gigantes,
e se lembram de tudo ao acordar!
Contadores de histórias me enfeitiçam
como nenhuma bruxa nunca fez:
suas palavras causam arrepios,
voam nos ares e correm nos rios,
quando começam seu era uma vez...
Rios, Rosana Palavras mágicas/ Rosana Rios
São Paulo: Studio Nobel, 2010.
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